Domingo, Julho 30, 2006

A arte de perder


Conversava outro dia com uma amiga e falamos sobre a dificuldade do ser humano de se desapegar a fatos passados, situações que já aconteceram, que já deixaram a sua marca e que não é possível mudar.

Esses fatos a que nos apegamos normalmente estão relacionados a algum tipo de perda. A gente fica remoendo o assunto, tentando colar os poucos estilhaços que sobraram, numa tentativa vã de recuperar algum pedaço daquele passado perdido. Lidar com a perda é um dos mais difíceis desafios do ser humano.

Segundo Colin Murray Parkes, psiquiatra britânico que se dedica a estudar as questões que envolvem a perda e autor do livro Luto: estudos sobre a perda na vida adulta, há vários tipos de perda, como o divórcio, o desemprego, a migração forçada, a morte, as perdas envolvidas na recuperação de um câncer entre outras.

A perda pela morte, por exemplo, deixa grandes feridas, mesmo sabendo ser um fato, um destino inevitável, que está além da nossa vontade. A única solução nesse caso é a busca da aceitação por meio do sofrimento. Morre um pedaço de nós, mas aprenderemos a conviver com a eterna dor desse vazio que não se pode preencher.

A perda pelo abandono ou pela rejeição talvez seja a pior de todas, pois mexe com algo de essencial dentro de nós. Mata, muitas vezes, a nossa melhor parte. De alguma forma, sempre buscamos encontrar uma justificativa em nós mesmos, como se não tivéssemos sido suficientemente bons para evitar esse tipo de perda. Mas nunca há uma resposta. Nesse caso, ou a gente perde a crença no relacionamento humano e acaba optando pela solidão, ou, na melhor das hipóteses, criamos uma couraça interna que dificultará bastante futuras relações.

Ainda segundo Parkes, a perda (e o luto) é um “inevitável processo emocional”. Claro, pois a vida é um ciclo, ou seja, uma sucessão de perdas. Algumas meio óbvias, como a morte de um ente querido, uma separação, um divórcio; outras não tão óbvias: perda de dinheiro, perda da saúde, perda de um ideal, perda de um amigo; algumas perdas temporárias, como o companheiro ausente, o filho estudando fora, um assalto, um mau período nos negócios; e perdas relacionadas com o próprio processo da vida: o fim dos sonhos de infância, dos romances adolescentes, da juventude, da beleza.

A maior parte dessas perdas está ligada às expectativas que temos das situações e das pessoas. Muitas vezes, nos sentimos rejeitados pelas pessoas ou nos decepcionamos com as situações porque antes mesmo de darmos algo, de vivermos aquela experiência, já existe uma expectativa. E se nossa expectativa não for satisfeita, a perda acontece. Assim, é a expectativa que está criando problema, não as pessoas ou as situações. Vivamos sem esperar nada em troca. Doemo-nos pelo simples prazer de doarmo-nos, sem aguardar qualquer tipo de retribuição. A vida nos retribuirá de alguma forma, quando menos esperarmos. Mas só o desapego, a consciência do fim de mais um ciclo, permitirá que percebamos essa recompensa.

A primeira coisa a se fazer quando se perde algo é aceitar a perda. É preciso enfrentar a realidade. A perda é real. Mais uma fase acabou, mais um ciclo se completou. Aceite. A perda prova que você está vivo e é capaz de reagir às experiências da vida. Lembre-se de que todo mundo enfrenta perdas na vida. Essa é uma constatação que ajuda a diminuir o sofrimento, pois a gente não se sente tão sozinho.

À medida que nos libertamos da dor, vamos entrando no compasso do Universo outra vez. É hora de explorar nosso mundo interior e redescobrir nossa liberdade; de atravessar nossas fronteiras de sonhos e medos, e de começar um novo capítulo, um novo ciclo, em nossa vida.

“The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster”

“A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério”.


One Art (Uma Arte), de Elizabeth Bishop

Escrito por .-=Ansi=-.

8 Comments:

  • Perfeito esse texto, além de muito bem escrito, como sempre.

    Sinto-me uma prova viva de que as perdas são fechamento de ciclos.

    Hoje, por motivos vários, consigo dizer para mim mesma que, finalmente, a vida resolveu "sorrir" para mim, onde a fase de perdas deu um tempo e a de ganhos se iniciou. Ganhos em todos os sentidos.

    Sabe quando uma coisa se encadeia em outra e tudo vai se realizando em sincronia? É essa a fase em que vivo e assino embaixo de tudo o que você falou.

    Perder, todos perdemos. Deixar-se abater, aí já é outro papo.

    A maneira como nos refazemos das perdas é pessoal. O que funciona para um pode falhar para outro. A minha maneira é confiar em Deus e saber que tudo o que me acontece pertence A MIM, sendo A MIM destinado. Cabe-me, então, aceitar com maturidade e passar logo por aquilo, sem me agrilhoar ao sofrimento, sem dar-lhe mais valor do que realmente tem.

    Sofro, rebato e sigo. Em outras palavras: vergo, mas não quebro!

    Muito bom o texto, Anselmo. :o)

    Parabéns!

    By Blogger Nikita-El-Amar, at 11:01 PM  

  • Bacana o post Alca... muito bom mesmo!!
    Abraços!!!

    By Anonymous Cavaller El-Caray, at 1:02 AM  

  • Pow... Vc quase me matou de susto! Qdo eu vi o "The End" lá em cima eu achei que o Allegro iria fechar as portas (assim como o Essência)... Mas, fora isso, excelente texto! []'s.

    By Anonymous André Butzke, at 3:58 PM  

  • Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    By Blogger Asdrúbol, O Sábio da Montanha, at 11:44 PM  

  • Todos os dias da minah vida, me empenho pra me desapegar um pouco mais das coisas e pessoas.
    Tá dando certo.
    Acho.
    :P

    By Anonymous Lidiane, at 7:02 PM  

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